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Jorge Luis Borges

Escritor Argentino
(1899-1986)

Jorge Luis Borges é aclamado em todo o mundo como um dos melhores escritores do século XX pela perfeição de sua linguagem, a erudição de seus conhecimentos, o realismo fantástico de suas ficções, a universalidade de suas ideias e a beleza de sua poesia. Seu singular estilo literário parte da interpretação de conceitos como tempo, espaço, destino e realidade, dando vida a reflexões filosóficas essenciais em intrigantes universos povoados por bibliotecas, labirintos e espelhos.

Biografia de Jorge Luis Borges

«Que um indivíduo queira despertar em outro indivíduo lembranças que pertenceram nada mais que a um terceiro é um paradoxo evidente. Executar com despreocupação esse paradoxo é a inocente vontade de toda biografia.»

(Tradução livre de fragmento do ensaio Evaristo Carriego, 1930)

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges nasceu em Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899. Desde muito cedo, desenvolveu afeição pela leitura e foi adquirindo uma grande erudição sob influência familiar. Graças à avó paterna inglesa, teve alfabetização bilíngue. Aos 4 anos já sabia ler e escrever, e aos 10 já havia escrito seu primeiro relato e publicado em um jornal local a tradução ao espanhol de um conto de Oscar Wilde.

Em busca de um tratamento para a progressiva cegueira de seu pai, sua família se instalou em 1914 em Genebra, Suíça, onde Jorge Luis Borges cursou o ensino médio. Em 1919, mudou-se para a Espanha, onde entrou em contato com o movimento ultraísta e colaborou com poemas e crítica literária em diversas revistas. Dois anos depois, regressou a Buenos Aires e participou ativamente da vida cultural da cidade, fundando com outros importantes escritores a revista Proa. Em 1923, lançou seu primeiro livro de poemas, “Fervor de Buenos Aires”. Após várias publicações, a consagração veio em 1935 com seu primeiro livro de contos, “História Universal da Infâmia”.

Jorge-Luis-Borges-Biblioteca-Nacional

Para garantir sua subsistência, trabalhou como bibliotecário em Buenos Aires de 1938 a 1946. Nesse ano, porém, Juan Domingo Perón assumiu a presidência da Argentina. Como Borges se opunha energicamente ao peronismo, se sentiu obrigado a renunciar e passou a trabalhar durante vários anos como professor de literatura inglesa e como conferencista itinerante. Com a queda do regime peronista em 1955, Jorge Luis Borges foi designado diretor da Biblioteca Nacional.

Durante esses anos, o escritor inaugurou o universo fantástico de suas narrativas, incluindo dois de seus livros de contos mais reconhecidos, “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Também escreveu diversos livros em coautoria com o amigo Adolfo Bioy Casares e com vários outros colegas.

Desde adolescente, Borges começou a padecer a mesma doença que o pai, perdendo quase por completo a visão em 1955. Seguiu adiante ditando palavras, primeiro para sua mãe Leonor e depois para a aluna, assistente particular, amiga e finalmente esposa, Maria Kodama. Continuou publicando livros dessa forma, sem nunca perder o ofício nem a magia.

Jorge Luis Borges Escritor Argentino Maria Kodama Europa Viaje Viagem

Borges recebeu importantes distinções das mais prestigiosas universidades e de vários governos estrangeiros, além de numerosos prêmios, entre eles o Formentor, em 1961 (com Samuel Beckett), e o Miguel de Cervantes, em 1979. Por uma ou outra razão, o Prêmio Nobel sempre lhe foi negado.

Jorge Luis Borges passou seus últimos dias viajando pelo mundo ao lado de Maria Kodama. Veio a falecer no dia 14 de junho de 1986 em Genebra, cidade de sua primeira juventude, sem ter deixado filhos. A viúva de Borges foi, desde então, uma grande divulgadora nacional e internacional da obra do célebre escritor.

Poema autorreferencial “Borges e eu” (1960)

Obras de Jorge Luis Borges

Características

Borges é reconhecido principalmente por sua rica produção de contos e poemas, mas também escreveu ensaios e outros textos teóricos como prólogos, antologias, traduções, cursos e conferências. Publicou, ainda, mais de 30 livros em colaboração com diversos autores, especialmente com Adolfo Bioy Casares, muitas vezes utilizando pseudônimos. Não foi adepto a escrever romances, pois preferia concentrar-se no essencial. Sua obra foi traduzida a mais de 35 idiomas, levada ao cinema e à televisão e musicalizada por grandes nomes como Ástor Piazzolla.

Biografia de Jorge Luis Borges 17

Os relatos borgeanos se constroem com base em uma série de temáticas recorrentes, como filosofia e metafísica; sonhos, realidade ilusória e fantasia; ordem e caos; causa e efeito; memória e esquecimento; tempo e espaço infinitos; instantes e eternidade; universos paralelos; vida e destino dos homens; ego e alter ego; mistério, violência e coragem; utilizando para isso metáforas como labirintos, espelhos, bibliotecas, relógios de areia, bússolas, rios, tigres, círculos, punhais, xadrez. Ao mesmo tempo, sua faceta mais localista se aprecia em histórias de valentes gauchos e em diversos poemas sobre sua cidade natal, Buenos Aires.

Suas influências mais notáveis provêm da literatura europeia antiga e clássica, representada por autores como William Shakespeare, Thomas De Quincey, Rudyard Kipling e Joseph Conrad, e da filosofia representada por Fritz Mauthner, Baruch Spinoza e Arthur Schopenhauer, entre outros. Apesar de Jorge Luis Borges ter se declarado ateu, sua literatura também utiliza elementos da Bíblia, da Cábala judia, do budismo e da tradição árabe-muçulmana.

Contos

História universal da infâmia (1935), O jardim das veredas que se bifurcam (1941), Ficções (1944), O Aleph (1949), A morte e a bússola (1951), O informe de Brodie (1970), O livro de areia (1975), 25 de Agosto, 1983 (1983).

«[…] vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que homem nenhum olhou: o inconcebível universo.»

(Tradução livre de fragmento do conto “O Aleph”, em O Aleph”, 1949)

Poesias

Fervor de Buenos Aires (1923), Lua defronte (1925), Caderno de San Martín (1929), Poemas (1923-1943), O fazedor (1960), Para as seis cordas (1967), O outro, o mesmo (1969), Elogio da sombra (1969), O ouro dos tigres (1972), A rosa profunda (1975), A moeda de ferro (1976), História da noite (1976), A cifra (1981), Os conjurados (1985).

«Parece-me lenda que Buenos Aires haja começado: julgo-a tão eterna como a água e o ar.»

(Tradução livre de fragmento do poema “Fundação Mítica de Buenos Aires”, em “Caderno de San Martín”, 1929)

Ensaios

Inquisições (1925), O tamanho de minha esperança (1926), O idioma dos argentinos (1928), Evaristo Carriego (1930), Discussão (1932), História da eternidade (1936), Nova refutação do tempo (1947), Aspectos da poesia gauchesca (1950), Outras inquisições (1952), O congresso (1971), Livro de sonhos (1976), Nove ensaios dantescos (1982).

«O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me dilacera, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.»

(Tradução livre de fragmento do ensaio “Nova refutação do tempo”, 1947)

Algumas obras de outros gêneros
  • Antologia da literatura fantástica (com Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, 1940)
  • Seis problemas para dom Isidro Parodi (policial com Adolfo Bioy Casares, 1942)
  • Invasão (com Adolfo Bioy Casares e Hugo Santiago, roteiro cinematográfico, 1969)
  • O livro dos seres imaginários (com Margarita Guerrero, 1968)
  • Buda (ensaio biográfico, com Alicia Jurado, 1976)
  • Borges oral (conferências, 1980)
  • Sete noites (conferências, 1980)
  • Atlas (diário de viagem, com fotografias de Maria Kodama, 1985)

Homenagens a Jorge Luis Borges

Em Buenos Aires, Argentina
Jorge-Luis-Borges-Busto-Rosedal-Palermo-Buenos-Aires

É extensa a lista de lugares que evocam a memória de Borges na Argentina, principalmente em Buenos Aires, cidade onde nasceu e morou a maior parte de sua vida:

  • Fundación Internacional Jorge Luis Borges (Anchorena 1660, Recoleta, Cidade de Buenos Aires) A fundação foi criada por Maria Kodama em 1988 para divulgar a obra de Borges. Inclui um museu com livros e outros objetos que lhe pertenceram, além de honras e prêmios recebidos. Fica ao lado da casa na qual Borges morou entre 1938 e 1943.
  • Centro Cultural Borges (Viamonte 525, Centro, Cidade de Buenos Aires) O CC Borges compartilha o mesmo elegante prédio que o shopping Galerías Pacífico, mas possui entrada independente. Embora seja um centro cultural com atrações variadas, costuma homenagear o célebre autor que lhe dá nome com exposições esporádicas.
  • Estátua na Biblioteca Nacional (Austria 2500, Recoleta, Cidade de Buenos Aires) No jardim externo da biblioteca, foi inaugurada em 2013 uma escultura de ferro em homenagem a Jorge Luis Borges, realizada pelo artista Antonio Oriana.
  • Antiga Biblioteca Nacional (Mexico 564, San Telmo, Cidade de Buenos Aires) De 1955 a 1973, já quase cego, Borges foi diretor da Biblioteca Nacional, cuja sede era este imponente edifício em San Telmo. Atualmente funciona no prédio o Centro de Estudos e Documentação Jorge Luis Borges.
  • Biblioteca Miguel Cané (Carlos Calvo 4319, Boedo, Cidade de Buenos Aires) Alguns anos antes, Borges trabalhou nesta pequena biblioteca do bairro de Boedo, mais especificamente de 1938 até 1946. Hoje existe um espaço em sua homenagem.
  • Busto no Rosedal de Palermo (Av. Sarmiento e Av. Libertador, Bosques de Palermo, Cidade de Buenos Aires) Desde 1996, uma escultura do rosto de Borges elaborada pelo artista Carlos Estévez faz parte do “Rincón de los poetas” do jardim Rosedal de Palermo.
  • Estátua no Café La Biela (Quintana 596, Recoleta, Cidade de Buenos Aires) A estátua de Jorge Luis Borges sentado em uma mesa ao lado de seu amigo Adolfo Bioy Casares recria uma cena comum quando ambos viviam pelas redondezas e frequentavam regularmente este tradicional café.
  • Rua e casa em Palermo (Jorge Luis Borges 2135, Palermo Soho, Cidade de Buenos Aires) Dos 2 aos 15 anos, Borges morou no antigo endereço Serrano 2135, rua que hoje leva seu nome. Embora outra casa tenha sido construída no local, em sua fachada há uma placa recordando o escritor.
  • Apartamento em Retiro (Maipú 994, Retiro, Cidade de Buenos Aires) O sexto andar deste edifício cêntrico foi a última residência de Jorge Luis Borges em Buenos Aires. O escritor morou aqui com sua mãe Leonor de 1944 até 1967. A fachada hoje exibe uma placa recordatória.
  • Casa Museu em Adrogué (Diagonal Brown 301, Adrogué, província de Buenos Aires) Nesta pequena casa do município de Adrogué, onde Borges passou vários de seus verões, começou a funcionar em 2014 um museu gratuito com poemas, livros e entrevistas do escritor.
Em Mendoza, Argentina
  • Labirinto em San Rafael  Como resultado de um antigo sonho de seus realizadores, foi criado em 2003 um grande jardim-labirinto projetado pelo inglês Randoll Coate na estância Los Álamos, em San Rafael, província de Mendoza. Em seu interior se encontram muitos símbolos borgeanos e, em vista aérea, pode-se ler o nome de Borges duplicado como em um espelho. Existe uma réplica do jardim no município de Tigre, província de Buenos Aires, e outra em Veneza, Itália.
Na Itália
Jorge Luis Borges Laberinto Labirinto Labyrinth Italia Venecia Veneza Italy Venice San Giorgio
  • Labirinto em Veneza  Um labirinto idêntico ao de Mendoza foi criado em 2011 na ilha de San Giorgio, em Veneza. O jardim foi encomendado à Fundação Giorgio Cini e está aberto à visitação.
Em Portugal
  • Monumento em Lisboa   No Jardim do Arco do Cego, que fica em frente à embaixada argentina em Lisboa, foi inaugurado em 2008 um monumento criado por Federico Brook que incorpora de um lado um molde em bronze da mão de Jorge Luis Borges e do outro o poema “Los Borges” (1960), no qual o escritor reconhecia ter ascendência portuguesa.
Na Suíça
  • Cemitério em Genebra  O túmulo de Borges se encontra no mítico Cemitério de Plainpalais (Cemitério dos Reis) em Genebra, cidade onde morou dos 15 aos 20 anos e onde escolheu passar seus últimos dias. Na lápide de pedra foi inscrito um fragmento de um antigo poema anglo-saxão: “…and ne forhtedon ná” (“… e não temais”).
Referências cinematográficas
  • Homem da Esquina Rosada (1962), de René Mugica, é um filme cult argentino baseado no conto homônimo de Borges. Foi a única adaptação cinematográfica de sua obra realmente aprovada pelo escritor.
  • Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, retrata uma sociedade futura distópica cujo antagonista é a máquina Alpha 60, que cita parte do ensaio “Nova refutação do tempo”.
  • Performance (1970), de Donald Cammell e Nicolas Roeg, e estrelado por James Fox e Mick Jagger, traz várias referências visuais ao universo de Borges, além de citar trechos dos contos “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e “O sul”.
  • O Nome da Rosa (1980), de Jean-Jacques Annaud, baseado no romance homônimo de Umberto Eco, tem semelhanças com o conto “A biblioteca de Babel”. Além disso, a personagem Jorge de Burgos, guardião cego da biblioteca, foi uma homenagem direta de Eco a Borges.
  • Memento (2000), de Christopher Nolan, foi inspirado nos contos “Funes, o memorioso” e “O outro”. Nolan é um fã confesso da literatura de Borges, o que lhe rendeu inspiração para outros filmes como Inception (2010), Interstellar (2014) e Tenet (2020).

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